sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A história de um simples morador, ou de um bairro?

Seu Geraldo é uma daquelas típicas pessoas que viu a cidade mudar. Morador do bairro da Guilhermina há mais de 50 anos, vive ainda na mesma casa desde que casou. Hoje já um pouco debilitado, e com um problema no joelho não consegue fazer mais, o que considerava como seu divertimento diário: Conversar com os amigos.

Todo dia de manhã, ele levantava e ia rumo ao mesmo ponto desde jovem, ver e rever aqueles que eram seus companheiros de velha data. Com disposição, encarava o frio e o calor e ficava lá, cerca de duas horas apenas mantendo a tradição.

-Conversava sobre tudo. Futebol, comentar a rodada do final de semana, falando mal dos outros...

Colegas de clube e de rua, ele e mais um grupo de seis ou sete pessoas, todos amigos desde a infância, ficavam vendo e discutindo toda a evolução do bairro nesses anos.

-Aqui só tinha a minha casa, ali na rua de cima, e alguma outras... o resto era tudo mato. – diz, rindo da situação.

Logo quando começou a morar no bairro, na década de 40, eram poucas as condições de moradia. O bairro havia sido criado na década de 20, e ainda restavam grandes lotes de terra a serem exploradas. Porém, em meio a esse próspero local passava uma linha de trem, famosa na época que ligava São Paulo ao Rio e era caminho para as principais autoridades. A Central do Brasil.



-Na época da Guerra, os pracinhas passavam indo pro Rio de Janeiro  e acenavam para a gente, e todo se reunia em volta da estação pra ver.

Época que mais tem lembranças. Conta, com certo arrependimento nos olhos, ou até mesmo uma lembrança que prefere esquecer, o tempo da guerra. Foi expulso da escola quando criança, por um motivo, hoje, um tanto quanto inocente e até mesmo difícil de ser calculado como discórdia.

-A professora tinha saído da sala, e nos estávamos conversando. Até que eu falei alto “Viva o Eixo!”, fui expulso por ter falado isso.

Escutava pelo rádio tudo o que passava pelo mundo. Época de ouro do rádio. Das telenovelas ás noticias da guerra. Era o seu único meio de informação. Fora o trem que volta e meia trazia uma informação nova.

Mas continuou ali no bairro e foi obrigado a mudar de escola para uma particular, pois nenhuma pública o aceitava mais depois do tal fato. Os pais tiveram uma grande dificuldade para mantê-lo,o que o obrigou a trabalhar cedo para ajudar. Quase uma brincadeira, que levou algo sério.

Ainda assim gosta de onde mora. Chegou lá por volta dos 10 anos de idade, e brincava na rua, como uma cidade de interior, mas numa cidade grande. Futebol, pega-pega, caçar coisas nos matagais que existia por perto, além da sua atividade preferida: ir aos clubes.
Dois eram os mais famosos no bairro. Lá fazia aquilo que era seu divertimento quase que semanal. Ir ao pesqueiro, passar a tarde inteira lá, seja se divertindo, seja “flertando”. Ou até mesmo, brincar. Como preferir.

-Ah, falar das mocinhas...

Aquele grupo de rapazes reunidos, com o mesmo propósito. Ficar mantendo a amizade, uma vez mais viva do que os dias atuais. Passa boa parte de sua infância/adolescência ali. E ainda lembra dos detalhes de cada um até hoje. Ensina com um brilho nos olhos os locais onde ficam localizados. Sem perguntar muito explica:

-Um ficava mais perto lá da estação. O outro, ficava ali chegando perto da Patriarca. Existe até hoje! Vai lá pra você ver como é legal!

 Até que, comete mais um deslize na sua vida. É expulso do clube. O motivo?

-Aprontei demais, era um menino levado...

Assim, lhe restou de diversão a rua. Que começava a se desenvolver, poucos anos depois do fim da guerra e dos últimos loteamentos das terras. Surgia, o que lhe trás um sorriso no rosto. Os campeonatos de futebol.

Era bairro contra bairro. Time contra time. Vizinho contra vizinho. E o que valia? A amizade, a rivalidade, o espírito de vitória. Aquela sensação de poder tirar o sarro do melhor amigo na disputa. Formavam-se os times com aqueles que eram os melhores e os piores. E assim começava a disputa.

Ia até os campinhos de terra do bairro vizinho, a lá disputava cada jogo como se fosse o ultimo. Se ganhasse, era o time mais reconhecido. E também, aqueles rapazes eram que tinham o prestígio de poder flertar as mocinhas mais desejadas. Um privilégio.

A fase mais curtida passa, como tudo na vida. Casa-se em 1954, tem filhos e muda de casa. Não muito longe, da rua de cima para rua de baixo. Uma diferença? Era do lado da casa da sogra.

Ali constrói sua família. Mora até hoje, no mesmo local, com o filho, este que o cuida. Mudança de favores. Hoje, Silvio, seu filho é quem faz tudo por ele e mantém um pequeno comércio na praça do bairro, bem próximo a sua casa. Tudo bem junto, como antigamente, como numa pequena cidade ou um pequeno bairro.

Porém, os amigos ainda permaneceram. Ou permaneciam. Dos seis, restam apenas três. O resto o destino acabou por leva-los.

-Resta apenas eu que mal consigo andar mais, e o Neu que volta e meia ele aparece ali no bar. O Paschoal ficou “xarope da cabeça” e se mudou daqui. – diz um tom irônico.

Seu Neu era o novato no grupo. Chegou depois somente nos encontros das manhãs apenas para manter o bom convívio.

-Ah ele está sempre ali no bar, mas é meio maluco também. Vira e mexe some e depois reaparece – diz Sílvio, filho de Geraldo.

O filho, hoje conta as histórias de um passado mais recente, porém sempre relembrando a mudança ocorrida no bairro. Como o pai, cresceu e vive ali no mesmo local de sempre. Na mesma casa.

-Eram poucas casas aqui. Hoje mudou muito. Depois da chegada do metrô tudo aqui mudou. Não dependíamos mais somente do trem. Me lembro de que quando era pequeno, brincava na rua também como meu pai. Sai a por aí, curtindo os clubes do bairro também. Para passar do outro lado do bairro, não existia o viaduto que existe hoje. Era uma passagem de nível, a porteira abria e fechava para os carros. Tudo bem diferente.


Sílvio não pensa em sair do bairro também. Gosta do local onde mora. Como o pai. Como todos os amigos que ainda restam ali e fazem acontecer a transformação da cidade. 
Mantém a tradição de se parecer uma cidade pequena, um bairro do subúrbio, mas com ares de prosperidade numa grande metrópole. Essa é a grande diferença. Isso é o que faz encantar, o que faz se sentir bem naquele lugar. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário